Coach Educacional – Práxis docente e o caminhar para a construção dos saberes exercidos no ambiente escolar

Por Ruth Souza

Revista Notícias nº 104

Muitos são os saberes essenciais para o desenvolvimento de uma práxis docente. O saber ético, saber que ensinar é abrir novos caminhos para uma construção de conhecimentos, saber dos conteúdos didáticos, saber do compromisso, saber do respeito diante da autonomia, da identidade e das características do outro. O processo de ensino se define como práxis quando a teoria e a prática se juntam para desenvolver no aluno um processo de transformação.
Ser educador é transformar futuros, ensinar sobre cultura e socialização e inserir o ser humano no meio em que vive. Para compreender a formação de um professor, deve-se entender que esse papel vem sendo exercido desde o ano de 1549, com os jesuítas, e o que se busca atualmente é uma boa qualificação de profissionais que consigam colocar os seus saberes em prática para que sejam seres humanos bem mais preparados para exercer suas funções como cidadãos, e não apenas como marionetes do destino. O papel do professor já teria seu objetivo diante da Lei de 15 de outubro de 1827, art. 6º, que diz:
Os professores ensinarão a ler e escrever: as quatro operações de aritmética; prática de quebrados; decimais e proporções; as noções mais gerais de geometria prática; a gramática de língua nacional; e os princípios de moral cristã e da doutrina da religião católica e apostólica romana, proporcionados à compreensão dos meninos; preferindo para as leituras a Constituição do Império e a História do Brasil (BRASIL, 1827, art. 6).

Todo esse domínio didático é elaborado pelo mestre, como era chamado o professor, e essas funções eram delegadas somente a um educador. O crescimento para grandes transformações diante da educação foi necessário, assim como a construção de uma identidade educadora, pois tanto a população como as leis ficaram exigentes com o ofício de ensinar, com a metodologia aplicada em sala de aula e, principalmente, com o papel do docente. Nesse sentido, o educador Paulo Freire (2014, p. 63) dizia que, “Ao pensar sobre o dever que tenho, como professor, de respeitar a dignidade do educando, sua autonomia, sua identidade em processo, devo pensar também, como já salientei, em como ter uma prática educativa”.

Os educadores do século XXI precisam se basear em uma práxis pedagógica consistente, na qual reflexão, profissionalização, responsabilidade, autonomia, sensibilidade diante dos saberes, competência, conhecimento didático, entre outros saberes, sejam capazes de torná-los agentes e produtores de seus próprios saberes, pois a sociedade tem se desenvolvido e exige do docente uma postura mais contextualizada. Os educadores devem aprender e ensinar, pois sua atuação servirá como exemplo diante da visão dos educandos.

“Os educadores devem aprender e ensinar, pois sua atuação servirá como exemplo diante da visão dos educandos.”

A escola funciona como forma de democratização em que se tem envolvidos com a educação professores, alunos, coordenadores, orientadores, sociedade, entre outros indivíduos. No entanto, o docente é o responsável direto pelo discente, e, para se ter uma valoração diante deste ofício, ele deve estar totalmente envolvido na sua formação inicial e continuada, articulada, que irá elevar seu nível de conhecimento das ciências humanas e naturais, da cultura, da arte, dos conteúdos didático-pedagógicos.
É certo que os saberes para uma formação docente acontecem em vários momentos da vida cotidiana, esse caminho percorrido entre leituras, graduação, experiência no estágio e o dia a dia em cursos é a estrada da construção da identidade docente que será a base de uma práxis de ética, respeito, compromisso, conhecimento, bom-senso, tolerância, etc., adjetivos estes que irão acompanhar o preceptor no ambiente escolar e fora desse ambiente, pois a postura como pedagogo é observada não somente em sala de aula, mas no seu cotidiano.

O docente é julgado por sua conduta como pessoa, como família, como pai ou mãe, como cidadão, pois, antes mesmo de ensinar, passa-se pelo processo de aprender a aprender, a ser um sujeito social e um sujeito pessoal diante da sua vida particular. Tardif (2002, p. 11) salienta que “O saber não é uma coisa que flutua no espaço, o saber dos professores é o saber deles e está relacionado com a pessoa e a identidade deles, com a sua experiência de vida e com a sua história profissional”.

O docente constrói sua identidade para mediar a construção de novas identidades que sejam capazes de transformar o mundo com respeito e dignidade, onde faça a diferença na hora de lutar pelos seus ideais e deixe na lembrança do educando que, em sua vida, passou um educador que foi capaz de marcar sua história. Os saberes adquiridos pelo educador, ao longo de sua trajetória na graduação, em sua vida prática, nas experiências vivenciadas no estágio supervisionado, configuram uma valorização do desenvolvimento pessoal e profissional que irá fazer a diferença diante do seu ofício.

Para Libâneo (2006, p. 75), “A escola cumpre a função de transmitir/assimilar os conteúdos culturais para todos, a fim de colaborar com o desenvolvimento do ser humano para se tornar um ser histórico-social”. A preocupação que o docente necessita ter em relação ao processo de construção de conhecimentos do educando deve ser considerável, uma vez que essa conscientização do educador abrirá caminho para que o seu papel de facilitador de aprendizagem possa refletir nos valores e padrões da sociedade.
Os saberes adquiridos na prática e na teoria no processo de relação professor-aluno permitem a estes se conhecerem de forma que os professores transformem em práxis pedagógica as diferentes experiências formativas vividas ao longo da carreira profissional e apliquem esses conhecimentos de forma apropriada quando for necessário.

É importante lembrar que, assim como existem bons professores, existem bons alunos, porém para acontecer o ensino é necessário que se tenha os dois atores unidos. É necessário que educadores procurem se especializar para conseguir atender à diversidade que se encontra em sala de aula, e os saberes adquiridos ao longo de sua caminhada devem ser atribuídos ao seu planejamento, de forma que reconheça sempre o perfil de sua turma, as necessidades e dificuldades de cada discente, para, assim, conseguir atribuir seus saberes em cada situação ocorrida em sala, sabendo qual atitude deve ser tomada diante de cada ação do educando, do conteúdo e do objetivo final de cada aula ministrada.

Grande é a responsabilidade do educador diante do seu ofício ao ensinar o conteúdo, independentemente das condições da instituição da qual faz parte. O saber da criatividade, do compromisso, do comprometimento, do bom-senso, da humildade e da esperança deve fazer parte do saber da convicção de que a mudança é possível, de que, ao ensinar e aprender, podemos transformar o mundo sabendo respeitar direitos e deveres.

O educador, ao ensinar, amplia a construção de identidade do educando com saberes significativos que o deixam cheio de motivação e organização diante do que vai aprender. Gadotti (1999, p. 02) afirma que “O educador não deve ter em mente que possui todo saber, deve ser humilde e ter consciência de que não sabe de tudo”.

O educando de hoje tem sua personalidade formada diante de atos, pensamentos e ensinamentos do ambiente familiar em que vive; e a escola, perante sua função como ato social, deve colaborar para que o educando tenha uma personalidade proativa que contribua com os seus interesses escolares. Saber manter o aluno no ambiente escolar também é uma virtude que apenas educadores que ensinam com afeto têm, fazendo com que o educando possa superar as expectativas.

Saberes para a relação educador-aluno no Ensino Fundamental

Vários saberes devem fazer parte da vida de um docente, e um deles é indispensável: assumir-se como sujeito também da produção do saber. Somos seres inacabados, cheios de curiosidades e incertezas. Não se deve desrespeitar a curiosidade, o gosto, a linguagem daquele que sente o gosto do aprender. Nessa perspectiva, Freire (2014, p. 58) acrescenta que “O inacabado de que nos tornamos conscientes nos fez seres éticos. O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético, e não um favor que podemos ou não conceder uns aos outros”.

A ética citada por Freire desperta no educando uma admiração e a vontade de contribuir com a história da transformação humana. O educador não pode ter a cegueira da educação, suas habilidades e competências devem ser instrumentos na formação do ser humano enquanto sujeito que aprende a aprender, e os saberes docentes devem auxiliar o aluno a adquirir novas capacidades para sua vida profissional, que irão fazer a diferença na hora de atuar criticamente diante das mudanças sociais e, principalmente, do seu processo de ensino-aprendizagem.

Para sabermos falar, temos que escutar primeiro. Considerar o discurso de um discente é saber ampliar seu repertório de diálogo. A escola é um lugar de sociabilidade, e saber respeitar o educando diante de sua etnia, religião e cor é saber desenvolver uma práxis que considera a diversidade. O educador deve desenvolver sua metodologia levando em consideração saberes que possibilitarão uma troca de experiências entre os alunos, proporcionando-lhes novos conhecimentos e novas dúvidas que possam ampliar seu círculo de amizade.

É fundamental que o educador tenha uma postura harmônica diante dos demais educandos, pois a aprendizagem de forma coletiva é importante. Deve-se considerar as experiências de outras pessoas de forma que se consiga agregar na formação outros aspectos relevantes para as normas de sobrevivência, tanto no contexto escolar como na realidade pessoal. É no espaço escolar que o docente aprende sobre sua profissão, põe em prática seus conhecimentos, suas competências pessoais e profissionais, aprende a agir coletivamente e em favor da formação do aluno.

É importante que o discente tenha uma liberdade de expressão, que o ambiente escolar não seja um local de martírio, que encontre no educador um amigo que possui saberes, experiências, verdades que, muitas vezes, são consideradas pelo educando como absolutas. Isso tudo possibilita que o docente cresça em sua práxis, despertando no educador a necessidade que tem de buscar novos cursos, fazer novas leituras, de modo a dar continuidade à sua formação. Essas ações acabam tirando o docente da zona de conforto, levando-o a mudar suas atitudes dentro de sala de aula, a fim de que suas metodologias não se repitam ano após ano, abrindo sempre o espaço para a busca do novo.
Tem-se na práxis educativa a esperança de um futuro melhor, em que o ser humano tenha mais consciência das suas escolhas; não que a responsabilidade de educar o ser humano diante de suas ações adversas, de ensinar sobre valores, ética, moral e respeito esteja totalmente no docente, porém é necessário que se entenda que o educador mediará o educando em sua trajetória epistemológica.

A sociedade exige uma educação que realmente seja capaz de formar pessoas, orientando-as a desenvolver suas práticas sociais proativas no contexto educativo. Desta forma, faz-se justo lembrar que o educador não é uma pessoa destinada para bens específicos; o professor é um ser humano que, enquanto ensina, aprende a aprender e está a modificar-se enquanto interage com os educandos, pois seus desafios frente à sala de aula tendem a mudar a cada novo cenário.

Considerações

Ao analisar os saberes para uma práxis docente do ensino, compreende-se que, para que o profissional da área de educação desenvolva com qualidade sua práxis pedagógica, é necessário construir, em sua travessia humana, saberes pertinentes para o seu próprio crescimento. Os conhecimentos epistemológicos procuram transformar educadores em seres conscientes de seus compromissos com os educandos, tornando-os competentes em situações adversas e participantes como cidadãos que têm postura crítica. É necessário compreender que a ação do educador tem uma objetividade social, e os saberes estão relacionados com a experiência adquirida na teoria e na prática.

Referências

BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Subchefia para Assuntos Jurídicos. Lei de 15 de Outubro de 1827. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LIM/LIM-15-10-1827.htm. Acesso em: 05/10/2018.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2014.

GADOTTI, Moacir. Convite à leitura de Paulo Freire. São Paulo: Scipione, 1999.

LIBÂNEO, José Carlos. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. São Paulo: Loyola, 2006.

TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes, 2002.